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Os presentes do confinamento

Trago uma tristeza em mim. Tristeza atroz. Sempre me pareceu profunda. Mas agora vejo que está ali, apenas flutuando na superfície da minha mente.

Foi interessante reencontrá-la depois de 50 dias de isolamento social. Desde o início, me impus uma rotina disciplinada para me manter inteira neste período e, de quebra, passar a limpo questões pessoais que somente um retiro prolongado poderia tornar possível.

Nos primeiros 21 dias, me dediquei a um mergulho profundo na ancestralidade, nestes padrões que trazia em minha memória celular. Fui assim, me organizando, me purificando, até a Sexta-Feira Santa. No Domingo de Páscoa desagüei numa torrente de lágrimas. Chorei por todo o abandono desta e de outras vidas, o traço que escolhi para viver e curar nesta encarnação. Acessei minha própria vulnerabilidade. E foi um encontro muito lindo.

Sartre escreveu que “o inferno são os outros”, eu complemento: o inferno são os outros que habitam em mim.

Joice Sabatke

Nas semanas que se seguiram, à medida em que o isolamento ia se descortinando, comecei a caminhar em direção ao outro. E, se Sartre um dia escreveu que “o inferno são os outros”, hoje eu complemento: o inferno são os outros que habitam em mim.

Conseguir presenciar, estar de fato presente, na minha presença para observar este ponto de vista sobre si próprio – no caso, eu mesma – foi o segundo grande presente do confinamento. Perceber os jogos mentais que estão estabelecidos em nossas relações, desconstruí-los com amorosidade e engenho. A mente gosta de brincar, mas levamos tudo muito a sério. Nutrimos estas brincadeiras com nossos sentimentos. No fundo, gostamos de sofrer por isso.

E foi assim, à medida em que os dias e as semanas se passaram…avançando. Um passo por dia. Desafiando o meu abismo em camadas.

Arrisquei alguns passos no escuro e percebi que, afinal, nem é tão escuro assim. Sabia que antes do alvorecer, temos o trecho mais escuro da madrugada? E na iminência desta 50a aurora, abri os olhos. Meu despertador ainda não havia anunciado as 5h45 da manhã. Encarei você, tristeza. Você avançava rápida, com todo o cortejo de pensamentos desconexos que te acompanham.

Então é aí que habitas?

Gostas de boiar nos torvelinho dos pensamentos de uma mente acelerada?

Gratidão por enfim apresentar-se a mim com tu és.

EU SOU Joice e você, tristeza, não me define.

Os presentes do confinamento

2 thoughts on “Os presentes do confinamento

  • 06/05/2020 at 1:21 pm
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    Boa caminhada, tateando as margens do caminho escolhido, esquecido, sou tudo que habita em mim, sou a soma destas partículas, umas doces trago mais vezes a superfície, deixo que respirem, outras mantenho em segredo o máximo possível, mas, quando o doce já não me traduz por inteiro escancaro algumas janelas, sob as quais ainda tenho controle, mas dou permissão para o passeio. Meus aplausos .Parabéns. Abraço fraterno

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    • 07/05/2020 at 11:24 am
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      Gratidão, irmã, porque assim nos irmanamos nesta sutil energia… E a Lua, que linda lua de maio, sempre iluminando o nosso caminho.

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