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Varzeanos ganham um salário por jogo

Jogadores de várzea com algum talento recebem gordas propostas para defender times do campeonato da cidade e equipes do Interior. Ganham em média R$ 50 para uma singela exibição de 90 minutos. Mas há craques varzeanos mais valorizados, que não aceitam menos de R$ 150 por partida.

Série: Craques de Fim de Semana (2)
Publicada originalmente na segunda-feira, 25 de maio de 1998
Editoria de Esportes de Zero Hora, páginas 14 e 15
Porto Alegre (RS)

Joice Sabatke – Especial/ZH

Alguns jogadores de várzea só não são profissionais por falta de um contrato explícito. Muitos deles recebem para jogar, alguns ganham um salário mínimo por jogo. Outros, antes das decisões, se concentram na própria casa, às vezes, sob a fiscalização rígida do dono do time. Um craque de várzea, daqueles bem requisitados, de nome consagrado, pode ganhar até R$ 150 para participar de uma única partida de fim de semana. Geralmente, esses valorizados varzeanos da Capital são “contratados” por equipe amadoras do Interior. Ganham dinheiro da passagem e mais o pagamento ao final dos jogos, seja qual for o resultado, jogue ou fique no banco. Em geral, o que recebem no fim de semana serve de reforço na renda. Mas há quem viva só disso. Quem pensa que todo varzeano joga só por amor à camiseta, está errado.Para alguns, a paixão vem acompanhada de dinheiro.

O meia-direita, Rogério Barcelos, 22 anos, mantém suas economias colocando seu futebol à disposição dos times de várzea. Chagou a jogar nos juvenis do Inter, em 1992. Depois, passou por vários times do Estado, inclusive pelo quadro profissional colorado, até ser levado pelo Feugeuras, de Portugal. Com cinco meses de treinos rigorosos, sofreu uma lesão no menisco. Ao saber que deveria operar o joelho, voltou o mais rápido possível para o Brasil, deixando o passe profissional para trás.

Então Rogerio mudou de vida por completo. Trocou Portugal por uma casa no Beco dos Canfunchos, bairro Agronomia, quase divisa de Porto Alegre com Viamão. Ali ele joga, de graça, no Agrosantos, e aguarda chance num time profissional. Enquanto o contrato não vem, Rogerio reforça o orçamento com o dinheiro de atuações no Pinheiros, de Sao Leopoldo, e no Lomba do Sabão, de Viamão. A contratação varia de acordo com a importância da partida. “Cheguei a receber R$ 100 por uma rodada”, recorda o jogador.

A media de pagamento para o amador, porém, fica em R$ 50 por partida. Como na várzea, a maioria joga sem ganhar nada, e até paga para jogar, a contratação de jogadores pode provocar brigas dentro do time – tal qual ocorre entre os profissionais. “Uma vez passei a bola para um colega da equipe e reclamei da moleza dele”, lembrou Rogério, ainda surpreso. “Ele respondeu que quem devia correr era eu, porque ganhava para isto”. Dependendo do grau de competição do time amador, ao final do jogo cada um pega o seu pagamento e vai para o seu lado.

Os preços mais altos são reservados para os ex-profissionais, como Chico Espina e Pedro Verdum, ambos com passagens pelo Inter. Seus cachês podem chegar a R$ 150 por partida e por conta do nome. E do futebol.

Antes de partida decisiva, há casos em que o craque entra em regime de concentração, como nos profissionais. Concentração significa ficar em casa e não varar a noite. “Já fui chamado até de “sebedurão” por uma namorada do Rogério”, admitiu o pedreiro Luiz Carlos Fraga, 57 anos, referindo-se ao antigo personagem dos comerciais de TV que representava o mau-humorado dono da bola. A namorada tinha razão. Afinal, Luiz Carlos não hesitaria em ficar de guarda na frente da casa de Rogério para certificar-se que de que o craque não fugiria da própria casa durante a madrugada.

O dia em que Tuca perdeu para o cano serrado

Adroaldo Padilha de Moraes, o Dom, 67 anos, presidiu o Flamenguinho do Campo da Tuca, no Partenon, por 12 anos. No princípio, relutava em aceitar a empreitada porque é colorado e padecia só de pensar em perder os jogos do Inter nos fins de semana. Mas assumiu. De suas aventuras, lembra o episódio ocorrido há mais de 15 anos, quando o Flamenguinho foi se apresentar no Vila Santa Rosa, bairro Sarandi. Fez uma exibição de gala e talvez este tenha o sido o seu erro.

Os integrantes da então temível quadrilha do cano serrado moravam na Vila Santa Rosa. E não gostaram nem um pouco do show de bola exibido pelo time visitante. Nem havia terminado o primeiro tempo e tiros já varavam o ar perto do campo. A fase inicial acabou em 3 a 0 para o Flamenguinho. Mas, diante de tantos recados mandados pelos donos da casa, os visitantes retornaram a campo sem o mesmo ânimo do início. O goleiro passou a engolir frangos e até gols contra aconteceram. Ao final da partida, a equipe do Vila Santa Rosa tinha brilhantemente virado o jogo: ganhou de 4 a 3. Mas os integrantes do cano serrado já estavam embalados e não houve perdão. O pessoal da banda da Tuca, que acompanha o Flamenguinho, foi intimado a permanecer na Vila Santa Rosa para animar uma festa que começaria aquela hora.

Varzeanos ganham um salário por jogo

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