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A várzea revela os seus amantes

Eles viram craques nos fins de semana. Enfrentam campos de chão batido e morrinhos artilheiros com o entusiasmo de quem disputa uma Copa do Mundo. São cerca de 20 mil pessoas envolvidas em campeonatos só em Porto Alegre. De hoje até terça-feira, Zero Hora conta a história de anônimos astros da bola, alguns deles pagos com um salário mínimo por jogo.

Série: Craques de Fim de Semana (1)
Publicada originalmente no domingo, 24 de maio de 1998
Editoria de Esportes de Zero Hora, páginas 68 e 69
Porto Alegre (RS)

Joice Sabatke – Especial/ZH

Cerca de 20 mil pessoas, entre trabalhadores, profissionais liberais, funcionários públicos, desocupados e aposentados, se transformam em bravos e persistentes jogadores de futebol durante os fins de semana de Porto Alegre. É uma pequena multidão, o equivalente à população de uma cidade do tamanho de Triunfo. A maioria entra em campo e enfrenta o chão batido, grama rala, morrinhos artilheiros. Mas há também os que permanecem do lado de fora do campo, distribuindo camisetas, arrecadando dinheiro para as excursões e dirigindo times com a sabedoria de um técnico profissional.

Aos sábados e domingos, abnegados jogadores ocupam, só na Capital, quase 50 campos que também são utilizados para a disputa do concorrido campeonato municipal, uma competição que congrega mais de 500 times associados a mais de 50 ligas independentes. Só estes números já provam que o futebol de várzea não morreu em Porto Alegre, uma cidade tomada pelo desenvolvimento imobiliário e onde a cada ano se ergue um empreendimento imobiliário no terreno careca onde a rapaziada costumava bater bola. Resistem ainda apenas os locais em praças e parques e os campos considerados públicos – como os 36 mantidos pela prefeitura, e que juntos cobririam a área do Parque da Redenção, de Porto Alegre.

Para participar do campeonato municipal, uma liga deve organizar competição própria com um mínimo de seis times durante dois meses. As ligas escolhem seus campeões até setembro. Depois os vencedores jogam o verdadeiro campeonato municipal, de outubro a dezembro. “Os times participam como ser fosse uma Copa do Mundo”, comemora o coordenador do departamento de várzea, Amilco Pereira Neto, referindo-se ao campeonato municipal de várzea.

O futebol de fim de semana não é apenas o que gira em torno com campeonato municipal. É muito mais. O problema é que não existe dados sobre sua vastidão. Há torneios e campeonatos independentes em diversos bairros. Dois ou três dirigentes de times de esquina podem organizar uma liga se dar satisfação a ninguém. Da mesma forma os times pode migrar de uma liga a outra. A várzea abre caminho onde pode. Até em áreas invadidas, como a dos cinco campos em frente ao Hipódromo do Cristal. Ali o palmo de chão é artigo de luxo. Uma vez consolidada a área do campo, não há invasores que ali se atrevam a erguer barracos.

Uma das grandes promoções é a Copa Paquetá, que reúne durante seis meses 128 equipes da região metropolitana. Da história dos torneios patrocinados por empresas, ela é a mais longeva: já alcança a 10a edição. Começou movida pelo entusiasmo de Rui Larossa, um dos gerentes da loja, cuja vida vem sendo dedicada à várzea nas últimas quatro décadas. Rui Larossa é daqueles abnegados que acordam no meio da madrugada, preocupado que alguma coisa dê errado na rodada de sábado. “É bom a gente cuidar para que as coisas saiam melhor”, justifica. Larossa convenceu há 10 anos o dono das Lojas Paquetá a investir R$ 55 mil por ano em arbitragem e premiação. Como às vezes faltava justamente a bola na hora dos jogos, a taxa de inscrição passou a ser a mais pitoresca possível: duas bolas.

O dia em que o troféu foi carneado

Um boi para os três primeiros, um porco para o quarto e uma ovelha para o quinto. Atrás desta suculenta premiação, 24 equipes da Grande Porto Alegre se enfrentaram durante os últimos três finais de semana no 3o Torneio do Boi, no Campo do Jari, em Viamão, na divida com Porto Alegre. O organizador dos jogos é o treinador dos profissionais do Cruzeiro, Jairo Fernandes, 37 anos, o Jairão. A inscrição era de R$ 90 por time e quem entrasse com dois times pagaria R$ 140. No cálculo final, Jairo não tinha esperança de arrecadar dinheiro para pagar despesas. A receita das inscrições dificilmente cobre o gasto com premiação e arbitragem.

Nesta altura da tarde, o que vale é a bola rolando no Campo do Jari. Nas duas arquibancadas de pedra, uma atrás da trave e outra na lateral do campo, a torcida e os fiéis batuqueiros dão ritmo ao jogo. Sentados em cadeiras de praia, os moradores das casas vizinhas assistem à partida como se fosse de camarote. “No barco verde da esperança…” narra o samba da melhor categoria, cantado pelo pessoal no barzinho ao lado do campo, dando um tom festivo à tarde de domingo.

Mas o objetivo de cada time é levar a boa premiação. O Flamenguinho da Tuca conquistou um dos bois do ano passado. Depois de muito festejado, o animal ficou pastando no Campo da Tuca por umas boas semanas, até que o time decidiu: faria um churrasco do animal. E o pessoal carneou o bichinho sem a menor cerimônia. Só esqueceram de deixar os pedaços de carne esfriarem antes de serem ensacados e colocados no congelados. Aí estragou tudo.

A várzea revela os seus amantes

2 thoughts on “A várzea revela os seus amantes

  • 26/05/2019 at 10:08 am
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    Sua reportagem esta muito boa , ainda para os dias de hoje . Parabéns Joice você sempre esteve a frente do seu tempo Bjos.

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    • 26/05/2019 at 5:10 pm
      Permalink

      Grata pelo carinho, mãezinha. Você é a minha inspiração – ontem, hoje e sempre ❤

      Reply

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